Houve um tempo em que descer a Avenida da Liberdade, o sonho do Cinema nos libertava, as enormes telas pintadas que cobriam fachadas e empenas nos majestáticos Cinemas, animadas pelas imagens dos actores e atrizes, heróis da nossa adolescência e que encandeavam o nosso olhar.
Gigantes nas imagens de cores fortes, logo os identificamos: Grace Kelly, Jonh Wayne, Marilyn, Mastroianni e tantos outros (as). Grandes planos de amor e violência, retratos à solta nas nossa imaginação, apelos constantes à nossa presença. O S. Jorge, o Tivoli, o Condes, o Eden constituíram esse desafio á entrega a uma história numa sala escura onde o drama ou comédia nos envolvia. Essas telas enormes que animavam a paisagem urbana, substituídas periodicamente, convidavam e apelavam aos nossos sentidos.
Reconhecíveis pelo realismo das cenas ou pelo gigantesco retrato do “nosso heróis” ou “heroína”, compunham a “estória” do nosso dia a dia. Pintadas à mão, no chão sobre o pano cru, previamente preparado pelo pintor que calçando chinelos de pano deslocava-se no meio de baldes de tinta, empunhando um longo cabo de madeira com uma trincha no fim. Os “pinceis”, como se compreende,adaptavamse a uma função cuja escala era outra. O espaço tinha que ser enorme pois toda a tela pousava no chão. O artista, pintava, parava ,recuava e media o efeito, muitas vezes tal era a prática, que nem fazia esquiço ou maquete, pintava directamente com a composição na cabeça. Quando a tela tinha retratos, então o pintor, previamente executava uma maquete, baseado em fotos e diverso material promocional, visionava o filme e compunha uma síntese gráfica apelativa utilizando a regra da quadrícula para o aumento proporcional.
Adriano Rodrigues “Roiz” foi um dos mais qualificados deste desconhecido e curioso tipo de arte, que mais se destacou. Estudou em Lisboa, pintura na então Escola Superior de Belas Artes e cenografia no Conservatório. Conheceu Almada Negreiros, Beatriz Costa e Corina Freire, personalidades com quem conviveu. O seu atelier era no espaçoso Coliseu, ao qual retribuía com a feitura dos cartazes da casa. Trabalhou com o Manuel Lima, pintor, professor, cenógrafo e figurinista de teatro. Nesses anos em que o Cinema animava a vida, a qualidade de salas era muita e variada para todos os públicos. Era comum a tela na fachada. Existiam vários ateliers desta “cenografia”. Restam imagens em postais, fotos, revistas, jornais e reportagens na televisão.
Manuel Paula
Almanaque Olegário Fernandes, 2019










